RENATA CAJADO

POESIAS

Palavras que
pedem silêncio.

Uma seleção de poemas. Clique em cada título para abrir a leitura completa.

01

Abrigo conhecido

É irônico constatar / como a vida é inconstante...

É irônico constatar
como a vida é inconstante,
quando os planos construídos
se dissolvem num instante.

Nos deixando sem saber
como agir, como pensar,
e o verbo que vigora
é soltar e aceitar.

E a luta que se segue
é um desafio diário:
de lutar com a gente mesmo
e nossos monstros imaginários.

Onde o sonho despertou,
tão carente e desiludido,
que procura encontrar
um abrigo conhecido.

Mas eu luto e persisto
para encontrar uma razão
que me faça aceitar
toda essa equação.

E eu sei, ainda vai doer,
mas é preciso aceitar o momento
que infelizmente espera ansioso
pela vagarosa passagem do tempo...

poema · seleção autoral

02

Julgamento

Ah, como é fácil julgar / assim, num estalar de dedos...

Ah, como é fácil julgar,
assim, num estalar de dedos,
revelando em segredos
o que queremos ocultar.

Pois o que julgamos agora
é o nosso medo que, outrora,
pudesse surgir:

o lado desumano, irresponsável
ou profano
do nosso próprio existir.

Então, antes de nós,
é mais fácil atacar
as pedras e os versos
que não queremos guardar.

Em cada intenção
do nosso lado humano,
carente, louco,
debaixo do pano.

Fachadas de glória
ocultam histórias
de quem não viveu para contar.

E fracos são esses que se deixam levar...

Pois iguais todos somos,
lutando e buscando
razões para estar.

Verbo infinito
que se esconde no grito
de quem
tem medo de olhar.

poema · 2001

03

O Amor

É difícil falar sobre esse sentimento / que nos esquenta por dentro...

É difícil falar sobre esse sentimento
que nos esquenta por dentro
e confunde emoções.

Traz a ilusão e a grandeza,
tira o chão e a certeza
de que sobreviverá a temporais.

E o amor vem devagar,
assim, sem pressa de chegar,
nos tornando todos iguais.

Narra todas as histórias,
entre derrotas e vitórias,
que pudermos alcançar.

Enobrece nosso caminho
como se não houvesse espinho
que nos pudesse machucar.

Dá-nos a força e a coragem
para seguirmos nossa viagem
sem pararmos para pensar

que um dia irá se pôr,
como num último amanhecer:
amar, anoitecer e morrer.

poema · 2001

04

Os Versos

Qual sentido têm os versos / que saem sem se programar...

Qual sentido têm os versos
que saem sem se programar,
tão impuros e dispersos,
precisando aliviar?

Saber rir da dor,
entender que é passagem,
e as lembranças do amor
servem como uma miragem

que fortalece e nos faz ver
que as derrotas vêm e vão,
e a persistência do querer
guia nossa intuição.

E que se abram os caminhos
e me deixem desfrutar
essa minha cria ativa
para com ela me expressar.

poema · 2010

05

Retrospecto

Olhando o meu passado / encontro em meus braços...

Olhando o meu passado,
encontro em meus braços
o teu beijo, teu calor.

Minha atitude precipitada
me deixou irritada
em renegar-te, meu amor.

Já não ia tão tranquilo, calmo, contínuo,
sem hesitar qualquer final.
Você queria, a todo tempo, se livrar de mim
e, ao mesmo tempo, me amava, abraçava,
confundindo tudo, enfim.

Meu coração já não sentia
que nosso conflito valeria
tantos desgastes emocionais.

Minha boca era tua,
beijava-te toda nua,
abraçando os temporais.

Mas, por dentro, eu sabia
que, depois da chuva, o sol viria
para secar nossos lençóis.

poema · 2001

06

Deusa

Dói não ser deusa / dos mares e continentes...

Dói não ser deusa
dos mares e continentes,
dos sentimentos e ações,
dos homens descrentes.

Saber que o dia irá raiar
após sua morte
e que os ventos continuarão
a narrar os tempos.

Outras vidas, outros trajetos,
outros acontecimentos.

Dor prazerosa que traz alívio,
deusa dos ares, flutuando sem dimensão,
na perfeita imagem distorcida
da minha imaginação.

poema · 2010

07

O Começo

É tão doido constatar / como somos tão iguais...

É tão doido constatar
como somos tão iguais,
sendo homens ou mulheres,
não passamos de mortais.

E cada um em seu trajeto,
rumo a esse indefinido,
traz seu traço, seu afeto
e seu desejo proibido.

E o amor é um crescente,
como as fases dessa lua,
que vem manso, oscilante,
sem tecer verdade crua.

Mas eu sei, eu bem conheço,
que o amor vira paixão
quando a ausência se faz viva,
enlouquece o coração.

E eu atendo seu pedido
e me ausento lentamente,
assim como faz a lua
quando nova no poente.

E quando os corpos se unirem
novamente, com saudades,
todo amor que estava oculto
se tornará realidade...

poema · 2015

08

Hoje

Hoje sinto que eu sou / tão ingênua, tão menina...

Hoje sinto que eu sou
tão ingênua,
tão menina,
por acreditar no amor.

Pois o que era a certeza
de ser tanto sentimento
se confunde na cadência
que oscila com o vento.

Já que o amor só é real
se doer em quem o sente,
amor próprio, narcisista,
que só sabe ser carente.

E o sonhado desapego
que insiste em me tocar
chega manso, meio azedo,
pois não quer me libertar.

Mas a pura consciência
de saber da ingenuidade
já me faz menos menina
para olhar a realidade!

poema · 2014

09

Sonho de leões

Dentro do teu sonho / eu me torno tão real...

Dentro do teu sonho
eu me torno tão real
que leões e leoninos
não nos podem fazer mal.

E uma estranha sensação
de reconhecimento
esculpe a pedra, vagarosa,
já moldada pelo tempo.

Para que, na hora certa,
no momento esperado,
o coração que bate forte
te coloque ao meu lado.

E que possamos sempre estar
tão inteiros, conscientes
de que tudo que existe
se encontra no presente.

E se o futuro nos deixar
preservar o sentimento,
esse sonho de leões
será presente todo tempo.

poema · 2013

10

Sua que sou eu

Entendo o que sentes porque sinto / que sou um pouco eu errando a mira...

Entendo o que sentes porque sinto
que sou um pouco eu errando a mira,
e tanto que, se fosse menos isso,
seria a perfeição de uma mentira.

Entendes o que eu sinto porque sentes
que muitos dos defeitos duradouros
são causa e consequência do momento
quando voltas a errar sem mais pudores.

Pois somos tudo e nada, nada e tudo,
trancadas nas ciladas da história,
que insiste em ser fugaz e amorosa,
loucura de uma vida sem memória.

E o amor nos leva longe e nos conduz
à entrega de uma calma provisória,
pois tudo vale só por um momento,
o eterno dissabor de uma vitória.

E glória é estar nesse teu mundo,
na cama e no calor de tua essência,
mistura de sentidos que alucina,
loucura que me tira toda ausência.

Por ti só não posso não ser eu,
pois foi por quem tu te apaixonaste.
Se mudo para dar-te esse prazer,
te perco, pois me entrego a ser covarde.

E nessa luta quero ser tua heroína
e, por vezes, assumir que sou errante,
chorando quando é dura a batalha,
sorrindo por saber que é um instante.

Pois tu és ainda o que procuro
na vida, no escuro, na estrada,
nos dados que nem sempre são exatos,
pois erram muitas vezes a jogada.

E por ti quero viver e ser feliz,
brincando de errar e de aprender,
tentando encontrar no que perdi
uma outra nova forma de viver.

poema · 2005

11

Consciência

Meu coração sofre / por ter a consciência...

Meu coração sofre
por ter a consciência
de que a força que preciso
se esconde na carência.

De querer ser tão amada,
sem freios e precedentes,
um amor enlouquecido
que precisa estar presente.

E eu paro e me pergunto:
para que ser tão amada
por alguém que não eu,
para seguir minha jornada?

No final, somos nós mesmos,
nus e sós pelo caminho,
com amigos e amores,
caminhando tão sozinhos.

E eu preciso encontrar
essa força interior
que me faça desligar
do que me faz sentir pior.

E nesse encontro equilibrado
entre eu e o universo,
eu permito me amar
para ser amor completo!

poema · 2014

12

Liberdade

Amo tanto te amar / pois és fã da liberdade...

Amo tanto te amar,
pois és fã da liberdade,
e sem a pela metade.

No momento que sentimos
que o amor é obrigação,
o desejo enrustido
vai para outra direção.

Voa alto pelos ares,
sem querer jamais pousar,
sai buscando nos olhares
a chance de se realizar.

E nessa busca incessante
por achar o ideal,
nos perdemos no caminho
entre o que não é real.

Então invisto na certeza
de que o amor é liberdade
e continuo te amando,
amor livre de verdade.

poema · 2013

13

Chuva

Enquanto a chuva cai / varrendo a escuridão...

Enquanto a chuva cai,
varrendo a escuridão,
meu coração já vai
em outra direção.

Pensando nos seus olhos,
tua boca, teu olhar,
que tanto me envolvem,
querendo te encontrar.

E a chuva cai narrando,
em seu tempo desigual,
e a chuva vem chovendo,
lavando todo mal.

Lembrando das histórias
que a chuva já narrou,
trovões com tantos raios
que a noite iluminou.

E quando eu paro e penso
no que ainda está por vir,
eu vejo a chuva linda
deixando a flor florir...

poema · 2012

14

Criações

Eu tenho a consciência / de que sou a criação...

Eu tenho a consciência
de que sou
a criação de uma mente
que me imaginou.

E, como criadora,
também tenho consciência
de que tudo que eu invento
vem da minha experiência.

Aí paro e me pergunto
se o que eu crio também crê
que uma mente criativa
o fez aparecer.

Como se antes fosse nada,
em uma página vazia,
que a mente fértil e louca
fez virar poesia.

Mas talvez minha pergunta
nunca seja respondida,
e minha mente curiosa
será sempre induzida

a acreditar que todos somos
frutos da criação
de uma mente muito louca,
cheia de imaginação.

poema · 2014

15

Aqueles dias

Existem dias / que sabemos dar e receber...

Existem dias
que sabemos dar e receber,
que amamos
por existir e por saber
que a vida
está aqui para viver.

Existem dias
que qualquer atitude faz doer,
magoa dentro sem querer,
porque no fundo só queremos
ser amados sem sofrer.

E não bastam os desafios que virão,
agora ou em outra ocasião.
Viver é ter que lidar,
a cada momento, sem cessar.

Mesmo que eu me sinta despreparada,
um pouco só, caminhando nessa estrada
que eu não sei onde vai dar.

Mesmo que eu me sinta vitoriosa,
destemida e um pouco corajosa,
ainda assim tenho tanto a trilhar.

E nesse caos que traz confusão,
me recolho em minha solidão
e reconheço que o desafio é só meu.

E já que não posso mudar o mundo,
mudo meu olhar e, nesse segundo,
uma magia aconteceu.

poema · 2013

16

Maturidade

Eu hoje questiono o que me tornei / envolta em sonhos que tanto sonhei...

Eu hoje questiono o que me tornei,
envolta em sonhos que tanto sonhei,
agora mulher que o tempo esculpiu,
menina teimosa que admitiu

que deve soltar o desejo,
entender que existe um preço
da escolha que um dia eu fiz,
escolha ingênua de ser tão feliz.

Assim como a rosa que exala,
em sua verdade, sua cor,
verdade tão nua e tão clara,
a simples fragrância de amor.

E aí só me resta aceitar
e seguir o caminho da estrada
que existe sem ter que pensar,
pois há anos já foi trafegada.

E eu simplesmente só sou
mais um que caminha pensante,
tentando induzir em meus planos
o sonho de ser importante.

A ponto de realizar
o que a menina ingênua queria:
fazer dessa vida deleite
para tudo virar poesia.

E mesmo que eu me afaste
do sonho aéreo da arte,
o resto que sobra de mim
flutua em alguma parte.

poema · 2013

17

Retrospecto racional

E no meio do caminho / eu me sinto tão perdida...

E no meio do caminho,
eu me sinto tão perdida,
imersa em tantas névoas,
furacões e despedidas.

Que chacoalham e abalam
meu sistema corporal,
me trazendo tão para dentro,
num retrospecto racional.

E o silêncio é evocado
pela voz que já não fala,
submissa e compreensiva,
grita alto quando cala.

E perder me faz soltar
essa gana de querer
que o mundo aconteça
da forma que eu quero fazer.

Então me fecho em minha concha
e assisto a vida correr,
esperando novamente
que ela me deixe acontecer...

poema · 2013

18

Desencontros

Existem encontros estranhos / que chegam sem avisar...

Existem encontros estranhos
que chegam sem avisar,
movendo moinhos de ventos
que chacoalham as ondas do mar.

Nos trazem certeza e medo
de que vieram para ficar,
mas seus desencontros tamanhos
nos fazem duvidar.

E aí eu sigo sozinha,
amando por amar,
pois sou amor em pessoa,
voando até encontrar...

O amor que eu sinto em seus olhos
já me faz repensar
se és o amor que procuro
quando te sinto oscilar.

Já que, se for amor,
deve persistir
aos terremotos e furacões
e nunca desistir.

Então te deixo ir embora,
te agradeço por deixar te amar.
O verbo infinito vigora:
amar, amar e amar!

poema · 2013

19

Passageiros

Olhamos a vida por dentro de um muro / visão limitada, de um porto seguro...

Olhamos a vida por dentro de um muro,
visão limitada, de um porto seguro,
que nossa cultura nos faz aprender:
o inverso trajeto do que deve ser.

Pois somos passagem para o desconhecido,
que ofusca a verdade do que nos foi dito,
ilude e prorroga a dor que um dia,
se fosse aceita, seria alegria.

Então eu prossigo para um dia encontrar
a calma sentida do meu próprio sonhar.
No fundo, a resposta se encontra tão dentro
que confunde a verdade de meu sentimento.

Já sei o que importa, não vou me julgar.
Meu erro humano me faz viajar
na fé que eu tenho e que só pode ser minha.
Me fecho e prossigo, e o tempo caminha.

poema · 2014

20

O ideal

Hoje me perco em meu próprio querer / que ofusca as perguntas que quero fazer...

Hoje me perco em meu próprio querer,
que ofusca as perguntas que quero fazer,
já que essas respostas que encontro sozinho
indicam e narram meu próprio caminho.

Te quero e me iludo no meu ideal,
te amo querendo que seja real,
mas sei que não posso e nem tenho o direito
de exigir que o amor seja só do meu jeito.

E é sempre essa tal de expectativa
que traz desconforto, que traz frustração.
O ego confunde e a mente vencida
guerreia sozinha pela contramão.

Entendo o amor que sentes por mim,
entendo que sentes e que não quer ver o fim.
E por isso me perco nos meus sentimentos
e me sinto criança pedindo ao tempo...

Me faça mais forte, capaz de entender
que a minha vontade também pode ver
as coisas rolando do jeito que são,
sem dor nem remorso, nem medo do não.

poema · 2013

21

Aceitação

E assim a vida trouxe / já não cabe contestar...

E assim a vida trouxe,
já não cabe contestar.
A maré é muito forte
e não há meios de nadar.

Então deixo a natureza,
sempre sábia, conduzir
nas correntes a certeza
de que é preciso evoluir.

E eu sei, chegou a hora,
já não posso prorrogar.
O boicote de outrora
aqui já não tem lugar.

E sem mágoas nem rancores,
e muito menos julgamentos,
me liberto por inteira
para seguir ao som do vento.

Pois a vida me exige:
torna-te logo quem tu és
e não fuja novamente,
já que sabes o que quer.

Veja os nãos pelo caminho
como um alerta que te diz:
não desista dos seus sonhos,
o sim vem se persistir.

E a vida está aí
para a gente interpretar.
Alegria ou tristeza
é só uma forma de olhar...

poema · 2014

22

Desabafo

Nunca tive a pretensão / nem tentei ser tão correta...

Nunca tive a pretensão
nem tentei ser tão correta.
Sempre andei na contramão,
procurando a minha reta.

Pois eu sei, somos semblantes
de um olhar particular,
e o meu é simplesmente
a minha forma de olhar.

E é tão louco constatar
que, envolto às diferenças,
nós humanos repetimos
nossas próprias semelhanças.

Porque somos resultados
de essências já vividas,
quando nossos antepassados
conduziram suas vidas.

Sem saber se era certo
o caminho que tomaram,
e seguiram caminhando
nesse passo involuntário.

De viver, de ser feliz,
de querer realizar
a razão de estar aqui,
sem saber onde vai dar.

E no fim talvez não importe
a resposta desejada.
No caminho descobrimos
que as perguntas são estradas

que nos fazem perseguir
as escolhas que fazemos.
E julgar não cabe aqui:
é no erro que aprendemos.

E entre erros e acertos
e desejos individuais,
todas essas diferenças
tornam todos nós iguais.

poema · 2013

23

Papel em branco

E o papel em branco aceita / o que a mente fértil imprime...

E o papel em branco aceita
o que a mente fértil imprime,
devaneios de existência,
onde o nada se define.

Sou o vento que se aquieta,
ofuscando calmaria,
quando em mim não cabe nada
e o silêncio silencia.

Mas a mente grita alto
e seu eco faz chover
trovões e tempestades
pro vazio se derreter.

poema · 2014

24

Presente ausente

Quanto tempo nós perdemos / procurando encontrar...

Quanto tempo nós perdemos
procurando encontrar
o oásis de um momento
que o futuro nos trará.

Como se logo adiante
existisse a solução
que acalme nossa busca
pela eterna perfeição.

E assim ignoramos
que só temos o agora,
pois futuro é incerteza
e o passado é história.

poema · 2015

25

Amar

Penso que o amor / é como rajada de vento...

Penso que o amor
é como rajada de vento
nas águas que esculpem as rochas:
é ócio e movimento.

Penso que amar
é pura intuição,
entrega e sobrevivência,
contato e proteção.

Penso que o amor
é como o ciclo lunar,
crescente até lua cheia,
tornando de novo a minguar.

Penso que amar
é verbo em construção,
exige que haja entrega
e siga uma só direção.

poema · 2013

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